"Se eu pudesse, por um dia, esse amor essa alegria, eu te juro, te daria, se pudesse esse amor todo o dia".
Seria de esperar que eu crescesse. Seria de esperar que a adultícia me fizesse mais fria, mais ponderada. Seria de esperar que aos 26 anos já soubesse abrir um pacote de ketchup sozinha sem o espalhar todo em cima de mim. E eu nem gosto de ketchup. Seria de esperar que eu crescesse. Que criasse certas capacidades. Seria de esperar que não me cortasse sempre que tento fazer alguma coisa na cozinha. Seria de esperar que aguentasse as saudades. Que não sofresse assim. Que não quisesse voltar.
Seria de esperar que já gostasse de polvo e que deixasse de gostar de ovo estrelado misturado com o arroz. Seria de esperar que crescesse e que não fosse só para os lados. Seria de esperar que deixasse de roer as unhas. Que acordasse cedo sem sofrer. Seria de esperar que já tivesse emprego e uma casa.
Mas a verdade é que gosto e que geralmente, aquilo que seria de esperar é aquilo a que temos de fugir mais depressa. Hei-de ser desastrada para sempre, a tendência aliás é piorar, e preferia não ser, mas não há nada a fazer...Hei de me mascarar no carnaval e de me colar a todas as portas que puder contigo...E hei de ter sempre saudades e ainda bem.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Quotidiano nº 1
Moro no centro da cidade. Onde aliás acho que toda a gente devia morar ou, pelo menos, querer morar. Há um autocarro que cobre toda a baixa do Porto e que é aquele em que eu me movimento. Nesse autocarro, que era o 20, há uma quantidade de pessoas estranhas que poderia facilmente dividir por sub-grupos.
Há uma velhota a quem eu gosto de chamar pomo da discórdia. Isto porquê? A velhota não tem, claramente, o que fazer, e por isso anda no 20 mais ou menos todo o dia. Para se entreter faz o mesmo que o Adivinho do Astérix, diz umas coisas baixinho a uns e outras coisas não tão baixinho assim a outros e depois encosta-se a ver satifeita. Depois de umas cenas de pancadaria e baixarias que não repito porque, afinal, sou uma senhora, os intervenientes saem nas suas paragens. Mas logo alguém entra de novo e é informado do que aquele senhor disse sobre a sua mãe e começa tudo de novo.
Há uma outra que entra sempre na minha paragem e que é muito malcriada. No outro dia viu um rapaz que vive por estes lados e que é brasileiro, com uma carteira de mulher e jeito enfeminado. Durante as dezassete paragens seguintes foi com esta conversa, para quem quisesse ouvir:
"Estes gajos agora não percebo, é tringalha com tringalha, rachadela com rachadela, são uns badalhocos!!! Isso que prazer pode dar a alguém?! Tringalha com tringalha, rachadela com rachadela!!! Que badalhocos!!"
Depois há os pervertidos de 80 anos que ficam com calor sempre que uma mulher com menos de 40 entra no autocarro...
Já dizia o grande Zeca que o que faz falta é animar a malta:)
Há uma velhota a quem eu gosto de chamar pomo da discórdia. Isto porquê? A velhota não tem, claramente, o que fazer, e por isso anda no 20 mais ou menos todo o dia. Para se entreter faz o mesmo que o Adivinho do Astérix, diz umas coisas baixinho a uns e outras coisas não tão baixinho assim a outros e depois encosta-se a ver satifeita. Depois de umas cenas de pancadaria e baixarias que não repito porque, afinal, sou uma senhora, os intervenientes saem nas suas paragens. Mas logo alguém entra de novo e é informado do que aquele senhor disse sobre a sua mãe e começa tudo de novo.
Há uma outra que entra sempre na minha paragem e que é muito malcriada. No outro dia viu um rapaz que vive por estes lados e que é brasileiro, com uma carteira de mulher e jeito enfeminado. Durante as dezassete paragens seguintes foi com esta conversa, para quem quisesse ouvir:
"Estes gajos agora não percebo, é tringalha com tringalha, rachadela com rachadela, são uns badalhocos!!! Isso que prazer pode dar a alguém?! Tringalha com tringalha, rachadela com rachadela!!! Que badalhocos!!"
Depois há os pervertidos de 80 anos que ficam com calor sempre que uma mulher com menos de 40 entra no autocarro...
Já dizia o grande Zeca que o que faz falta é animar a malta:)
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Kiss Kiss Bang Bang

Adoro ver pessoas a beijarem-se porque todos beijam de forma diferente e há tantos tipos de beijos. Beijos molhados, bejos repenicados, beijos na testa, beijos nas bochechas, beijos na mão, beijos na boca. Beijos de mãe e de pai, beijos de tias distantes acompanhados por alguns puxões de bochechas, beijos de irmão, beijos de amigos,beijos de gatos, beijos de amante. Beijos de despedida, beijos de boas vindas, beijos de comemoração, beijos de saudade, beijos de amor, experiências, .beijos de porque sim. É pelo beijo que nos conhecemos, seja de que maneira for.
Beijos porque beijar é bom e quantos mais tivermos na vida melhor.
Acho bonito os beijos urgentes dos adolescentes apaixonados e é lindo ver como, com a idade, os mesmos apressados são muitas vezes os que cultivam o beijar lento, quente, com que conquistam outros ex-adolescentes urgentes.
Eu já fui um desses.
:)
domingo, 2 de maio de 2010
Homem com H e Fascinação
Fascinação. Pura. A da Elis Regina mas o outro tipo também. Fui ver o Ney Matogrosso, e para os que pensem que fui sozinha só porque não levei companhia que se desenganem, o Ney estava lá em grande, namoradeiro, dono de uma voz intocável, teatral como sempre e maravilhoso.
Cantou tango, se tal é possível, e dançou. Já não é novo e não se veste de mulher, o que é uma pena. Ainda assim é ainda um bonito homem, provocador e simpático.
Saí de sorriso colado e ainda estou!
Entre as pessoas que admiro, que nem são tantas assim, está a minha avó. Mulher bonita, corajosa, forte, um pouco egoísta, ao que parece, fruto da educação que teve. Mas não comigo, nunca comigo. A minha avó mora num palácio. Aos olhos dos outros talvez não exactamente, talvez apenas viva num casarão grande e bonito, para mim é um palácio. Não só pelo tamanho ou pelos inúmeros tesouros perdidos que lá se encontram mas porque ela é uma princesa. Dona de uma elegância extravagante e de extremo bom gosto, loira de olhos verdes e curvas perfeitas. Quando era nova parava o trânsito e o sinaleiro fazia-lhe vénias. Suponho que nunca tinha visto tal beleza. Não o censuro.
Quando se ri faz covinhas nas bochechas e inveja a qualquer uma. Mas ela não é só beleza pura, é uma mulher de armas que sofreu tanto e sempre se recuperou com dignidade e força.
Na velhice é mais meiguinha, não o era tanto assim, excepto talvez comigo, não sei bem porquê. Há uns anos apareceu-lhe lá um gatinho abandonado e medroso a pedir mimo. Ela acolheu-o na cozinha e deu-lhe de comer. Uma vez ele apareceu-lhe lá a morrer a meio da noite e ela, com 81 anos, correu para o médico com ele ao colo para o salvar. Nem era o gato dela. Mas salvou-lhe a vida.
Hoje vivem os dois entre mimos e ronrons e miados eternos, ele sempre no colo dela e ela enternecida de todo.
A minha avó é uma Elizabeth Taylor, uma Katherine Hepburn. É a melhor do mundo.
Cantou tango, se tal é possível, e dançou. Já não é novo e não se veste de mulher, o que é uma pena. Ainda assim é ainda um bonito homem, provocador e simpático.
Saí de sorriso colado e ainda estou!
Entre as pessoas que admiro, que nem são tantas assim, está a minha avó. Mulher bonita, corajosa, forte, um pouco egoísta, ao que parece, fruto da educação que teve. Mas não comigo, nunca comigo. A minha avó mora num palácio. Aos olhos dos outros talvez não exactamente, talvez apenas viva num casarão grande e bonito, para mim é um palácio. Não só pelo tamanho ou pelos inúmeros tesouros perdidos que lá se encontram mas porque ela é uma princesa. Dona de uma elegância extravagante e de extremo bom gosto, loira de olhos verdes e curvas perfeitas. Quando era nova parava o trânsito e o sinaleiro fazia-lhe vénias. Suponho que nunca tinha visto tal beleza. Não o censuro.
Quando se ri faz covinhas nas bochechas e inveja a qualquer uma. Mas ela não é só beleza pura, é uma mulher de armas que sofreu tanto e sempre se recuperou com dignidade e força.
Na velhice é mais meiguinha, não o era tanto assim, excepto talvez comigo, não sei bem porquê. Há uns anos apareceu-lhe lá um gatinho abandonado e medroso a pedir mimo. Ela acolheu-o na cozinha e deu-lhe de comer. Uma vez ele apareceu-lhe lá a morrer a meio da noite e ela, com 81 anos, correu para o médico com ele ao colo para o salvar. Nem era o gato dela. Mas salvou-lhe a vida.
Hoje vivem os dois entre mimos e ronrons e miados eternos, ele sempre no colo dela e ela enternecida de todo.
A minha avó é uma Elizabeth Taylor, uma Katherine Hepburn. É a melhor do mundo.
terça-feira, 27 de abril de 2010
A Primavera é linda, principalmente vista da janela
Passeio-me pelo Mundo como se ele fosse perfeito, ignorando todas as falhas. Morrendo de vez em quando para logo renascer. Acreditando nas pessoas sempre à partida. Continuo a comprar pipocas com corante e algodão doce de vez em quando. A Fnac continua a ser um dos meus sítios preferidos para estar embora saiba que raridades lá só aparecem muito de vez em quando.
Passeio-me pelo Mundo como uma criança. Alegre, despreocupada, saltitante. E busco o que de melhor ele tem. Sonho com a época balnear e quando ela chega tenho vergonha de sair de biquini ou fato de banho. Detesto o meu corpo mas acredito que o sorriso conquista tudo. O meu e o dos outros. Para mim o sorriso é que é o espelho da alma, ou seria, se tal existisse. Se é verdade isso já não sei. Adoro e cultivo as palavras "bestial" e "tabefe" porque acho que são bestiais.
E porque vos escrevo todos estes disparates hoje? Porque a Primavera chegou de vez. Está um dia fantástico, para os comuns mortais hão-de estar uns 29 graus, para mim, doente da tiróide, uns 50.
E os pólens. Os pólens andem aí. E ninguém ganha para tantos lenços...
Passeio-me pelo Mundo como uma criança. Alegre, despreocupada, saltitante. E busco o que de melhor ele tem. Sonho com a época balnear e quando ela chega tenho vergonha de sair de biquini ou fato de banho. Detesto o meu corpo mas acredito que o sorriso conquista tudo. O meu e o dos outros. Para mim o sorriso é que é o espelho da alma, ou seria, se tal existisse. Se é verdade isso já não sei. Adoro e cultivo as palavras "bestial" e "tabefe" porque acho que são bestiais.
E porque vos escrevo todos estes disparates hoje? Porque a Primavera chegou de vez. Está um dia fantástico, para os comuns mortais hão-de estar uns 29 graus, para mim, doente da tiróide, uns 50.
E os pólens. Os pólens andem aí. E ninguém ganha para tantos lenços...
segunda-feira, 26 de abril de 2010
My feet is my only carriage
Há assim umas músicas que nos fazem pensar que tendo que escolher entre ser cegos ou surdos não pensariamos duas vezes antes de deixar de ver. Mas logo se impõem valores mais altos. Como viver sem a fotografia, sem o Miró, sem a arte visual toda já que muita o é. Que dilema. Não sei que tipo de falha tenho, alguma tenho. Penso muito neste tipo de coisas. E quanto estou nervosa digo as palaras ao contrário várias vezes. Fosse eu a um concurso de soletrar americano e com certeza que ganharia o primeiro prémio. Céus. Às vezes canso-me a mim mesma.
Eis os meus pensamentos mais delirantes:
Umhomem que não tenha covinha no queixo, por muito bonito que seja, nunca é tanto como um que tenha!
Penso que quando passeio de música nos ouvidos os outros também devem ouvi-la...Penso que quem tem um gato tem dois e que quem tem dois tem três e assim sucessivamente. Penso que posso fazer tudo o que quiser. Penso que se gostar de mim não há como ninguém não gostar. Esqueço-me dos que já não gostam porque uma grande parte do tempo eu também não. Insisto em ler 3 ou 4 livros ao mesmo tempo porque não sei esperar e não me controlo na hora de comprar mais.
E depois há as músicas que sempre conhecemos e que nos crescem cá dentro 26 anos depois como se fosse a primeira vez.
Coitado do Beethoven.
Eis os meus pensamentos mais delirantes:
Umhomem que não tenha covinha no queixo, por muito bonito que seja, nunca é tanto como um que tenha!
Penso que quando passeio de música nos ouvidos os outros também devem ouvi-la...Penso que quem tem um gato tem dois e que quem tem dois tem três e assim sucessivamente. Penso que posso fazer tudo o que quiser. Penso que se gostar de mim não há como ninguém não gostar. Esqueço-me dos que já não gostam porque uma grande parte do tempo eu também não. Insisto em ler 3 ou 4 livros ao mesmo tempo porque não sei esperar e não me controlo na hora de comprar mais.
E depois há as músicas que sempre conhecemos e que nos crescem cá dentro 26 anos depois como se fosse a primeira vez.
Coitado do Beethoven.
terça-feira, 23 de março de 2010
Diário póstumo da cidade de Santiago de Compostela
"Lá fora chove. Mais, parece que se abriram as portas do céu. Sinto-me só e desacompanhada senão pela minha própria presença e por este cigarro nesta varanda branca. Não sei bem o que sinto porque apesar das minhas lágrimas se confundirem com esta chuva que mas lava gosto de acordar às 15h com o Chico Buarque e fazer passeios com o Lou Reed nos ouvidos. No Porto a chuva incomoda-me. Aqui não. E não é mágica esta cidade? Fui beber uma Estrella Galicia porque não tinha dinheiro para comer mas apercebi-me com agrado que me ofereceram um pão com chouriço. Como não me sentir amparada nesta cidade se toda ela é vida? Porque choro como uma menina se sou uma mulher independente? Há dias vi um rapaz na Universidade, ele olhou-me muito, parecia tão perdido e só como eu mas tão completamente fascinado como eu por esta beleza toda. Há dias conheci-o, é brasileiro e sinto que vai tornar-se no meu melhor amigo. Ele entende-me e quando a noite e a tristeza não me deixam dormir ele acompanha-me, conta-me histórias de casa, de uma menina. Ele fala bem, dá-me o calor que me falta. Nunca conheci ninguém assim, tão desinteressado de tudo o que não importa, tão genuíno. Tem nome de estrela. Por isso talvez seja que me guia.
Continua a chover, pergunto-me quando será que o Chico Buarque deixará de cantar a Roda Viva na minha cabeça e fará destes dias uma roda viva de horas e alegrias e não de turbilhão interno. Conheci mais uma menina, moreninha, linda de morrer. É ela que me acorda todos os dias de manhã cedo para usar a minha casa de banho e me perguntar se estou melhor. Comecei a almoçar em casa dela e a ver os Simpsons e o Friends em espanhol. Os dias cinzentos começam a parecer-me melhores. Recebi um e-mail que deu cabo de mim. Tiveram de me tirar da sala de computadores porque já não conseguia respirar. Nunca pensei que se pudesse sofrer desta maneira. Só me apetece ir para a chuva lá fora e deixar-me absorver.
(...)
Passaram os meses. Os meus dias mudaram, esta chuva já me parece sol, parece abençoada e eu tão feliz que não quero pensar nunca que pode acabar em breve. Sou feliz e sei que vou sê-lo para sempre.
(...)"
Continua a chover, pergunto-me quando será que o Chico Buarque deixará de cantar a Roda Viva na minha cabeça e fará destes dias uma roda viva de horas e alegrias e não de turbilhão interno. Conheci mais uma menina, moreninha, linda de morrer. É ela que me acorda todos os dias de manhã cedo para usar a minha casa de banho e me perguntar se estou melhor. Comecei a almoçar em casa dela e a ver os Simpsons e o Friends em espanhol. Os dias cinzentos começam a parecer-me melhores. Recebi um e-mail que deu cabo de mim. Tiveram de me tirar da sala de computadores porque já não conseguia respirar. Nunca pensei que se pudesse sofrer desta maneira. Só me apetece ir para a chuva lá fora e deixar-me absorver.
(...)
Passaram os meses. Os meus dias mudaram, esta chuva já me parece sol, parece abençoada e eu tão feliz que não quero pensar nunca que pode acabar em breve. Sou feliz e sei que vou sê-lo para sempre.
(...)"
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