domingo, 4 de julho de 2010

Tripeiro de copo e alma

São 6h da manhã. O Porto, cidade de todas as cores, está agora pintado de azul escuro. Um azul que se mistura com o amarelo das luzes das pontes e com o vermelho dos semáforos. É incrível como os corpos que se arrastam para casa observam intrigados (ou algo fascinados) a chegada dos pescadores à beira da ponte. Esses homens que se levantaram às 4h da manhã e que às 4h30 já estão a montar tudo para começarem a trabalhar. É incrível como eu, depois de uma noite de momentos tão raros, me sinto tão preenchida por toda esta beleza. Já nem o sono me pode parar.
Vi um grupo tocar música popular e, como sempre, apetece-me juntar-me aos velhinhos e dançar. Aliás, dançar é só mesmo o que me apetece fazer.
E por fim chego a casa, corpo cansado e a mente...bem a mente nem se fala.
Tudo do que me lembro é das luzinhas do bar, do extremo calor que se faz sentir nas ruas e do azul do céu. Tão misterioso quanto a própria cidade. Que não é branca, nem é negra. É de todas as cores. São várias cidades. Tudo numa só. É a mais bonita do mundo inteiro e enche-nos as medidas.
No Porto quando se sai por aí, nunca se está sozinho.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

também foi assim

Quando eramos pequenos tinhamos uma senhora cá em casa que era como uma avó para nós. Cozinhava, contava histórias, era muito amiga. Era a Senhora Maria. A Senhora Maria pôs o meu pai a beber chá de hipericão todos os dias em jejum durante 10 anos. Ninguém dá ordens ao meu pai, mas a Senhora Maria impunha respeito! E tanto ele bebeu o dito chá que nunca mais teve problemas de fígado.
A Senhora Maria dizia "migalheiro" e "badalhoca". Eu costumava corrigi-la e repreendê-la mas ela achava gracinha e não se zangava. Afinal, eu dizia "bilaca" e chamava "Blhá" ao Miguel...
A Senhora Maria tinha tido um marido que lhe chegava a roupa ao pêlo todos os dias sem motivo aparente. Ela costumava dizer à minha mãe:

"Ai Sra. Doutora, Deus tem sido muito bom para mim! Eu costumava pedir-lhe "Dá-me pelo menos um ano de viuvez, pelo menos um", e olhe, já vou em 18!!! Abençoado!!".

Lembro-me bem da nossa primeira casa. Eu dormia na dispensa mas era o quarto mais adorável do mundo, todo feito à medida e branquinho. O Miguel tinha o quarto do fundo do corredor.
Davam-nos sempre tudo igual, o que um tinha o outro também tinha. Só que ele era poupado e eu não. Uma vez deram-nos um chocolate a cada um. Eu comi o meu numa hora, o dele durou 6 meses. Esconderam o dele no cimo de uma estante e eu subi, qual macaco, para o comer eu mesma. Descoberta e retirada do alto da estante, parti a cabeça do nosso cavalo de pau de um só golpe...
Isto aliado ao facto de a minha primeira palavra ter sido "bolacha" é preocupante...mas pronto, foi mesmo assim, e eu era feliz!

"Stuff and Nonsense"

Fui ao centro de saúde no outro dia. Médica nova porque fiz uma reclamação sobre uma outra que me tinha gritado e insultado. O SNS é uma paródia porque ando há cerca de 4 ou 5 anos à espera que me arranjem médico de família e me dizem que não há médicos. Então depois dessa "senhora" me ter feito o que fez e eu ter reclamado dela, por milagre, o chefe do centro de saúde decidiu que havia médico para mim e para todos os membros da minha família que o quisessem.
Fui à medica nova que, de forma muito profissional, começou a fazer-me perguntas sobre mim, medicamentos, operações, doenças, etc. Nesse processo não me olhou uma só vez. Passado um bocado perguntou:
"Já esteve grávida alguma vez?"
Digo eu "Não"
Ela: "E quando é que pretende estar?"
De novo, eu "Nunca, Sra Dra".
Aqui ela levantou a cabeça, olhou para mim com ar incrédulo e disse:
"Mas...nunca? Mas isso não é normal! Uma menina que não quer ter filhos?"
Eu "Sim"
Ela "Mas então ponho aqui na sua ficha? "Não quer ter filhos"??"
Eu "Não sei até que ponto isso é muito relevante, mas sim, pode pôr o que lhe aprouver!!!"
Ela "Bem...vou pôr assim: Aparentemente não quer ter filhos..."
Eu pergunto-me, já não vivemos no século XIX, se uma mulher quer ser independente e ter dinheiro para ter uma boa vida ninguém tem nada a ver com isso, não?
Às vezes temos mesmo de nos rir, né?=)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

i´m an ordinary woman, after all

Gosto de suhi. Uso o relógio no pulso direito e sou viciada em café. Gosto mais de gatos que de cães. Adoro patos. Nos lagos, não na mesa. Sou alérgica à natureza em geral. Escolhi o curso certo por todas as razões erradas. Ou talvez tenha escolhido o curso errado por todas as razões certas. Esta ainda não sei. Não gosto de bróculos, mas adoro grelos, e alface. Chamo-me Inês mas o meu nome favorito é Teresa. Se fosse homem queria chamar-me João Pedro. Tenho 3 gatas mas só tenho jeito para escolher nomes de gatos.
Adoro praia, mas tenho vergonha de ir.
Há dias, muitos dias, em que à noite só quero ir para a cama porque sei que vou sonhar. Muitas vezes são pesadelos, mas muitas outras são coisas boas. Não gosto que me dêem ordens nem de dar o braço a torcer. Mas sei pedir desculpa.
Acredito que seria essencial que toda a gente fosse criativa, sensível, amiga e sincera. Acho triste quando não se tem jeito para nada e se procura desesperadamente algo novo em que ainda não saibamos se somos um fracasso ou não. Luto contra isso praticamente todos os dias. Há dias em que acho que não está tudo perdido. E esses são os únicos que importam, na verdade.
Morro de desgosto de não saber cantar porque é o que mais gosto de fazer. Não gosto de quem tem medo da novidade. Admiro as pessoas mais velhas. Interessa-me muito saber como era a vida antigamente. Como os casais velhinhos se conheceram e se apaixonaram. Adoro fotografia. E música. E livros.
Em casa gosto de andar descalça. Às vezes tenho gostos estranhos mas não me importo. Já toquei no Eddie Vedder. Já fiz festinhas a um corcodilo bebé. Já estive no meio de um tiroteio. Tenho os melhores amigos do mundo.
Não quero ter filhos nem casar. E não gosto que me tentem dizer que quando for mais velha vou mudar de ideias. Não vou.
Sou de esquerda. Sempre.
Adoro cinema antigo e banda desenhada. Quero viver sempre no centro da cidade. Só não quero que seja nesta.
Gosto de regueifa e de pastéis de nata. Detesto marisco.
O meu sonho é conhecer a América do Sul.
Gosto de vespas, mas só de olhar. Morro de medo de andar de avião. Já andei centenas de vezes e a tendência é piorar.
Adoro festas. Não tenho carta de condução. Mas tenho duas perninhas:)
Gosto de música brasileira. E de vinho tinto.
Gosto de homens com covinha no queixo. Os que não têm, para mim, não têm graça nenhuma.
Até há poucos anos ainda tinha dois dentes de leite. Agora tenho implantes.
Às vezes tenho tiques nervosos. Tenho a tiróide a funcionar mal e às vezes tenho muita vontade de chorar. Mas não sou eu. É ela.
Já fui sozinha a um concerto. De certeza que irei a mais.
Gostei da experiência.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Se avexe não, passa para o Coentrão!!!!

Então após o magnífico jogo Portugal-Brasil e esse empate amigável faço questão de partilhar uma parte dos jogos a que ninguém liga muito: o relato!

Diz o comentador:
-Filipe Melo tem um feitio dos diabos!!!, Pedro Baptista, esse gosta mais de samba!
A minha mãe:
-Corre, corre, corre, dá ao Coentrão!!!
Comentador:
-Maicón é um jogador tremendo!!
Outro comentador:
-Aí vem Josué, um 1,70 de gente!
Comentador:
-Vai Danny!!....Não vai não!
Comentador:
-Olha lá, sabes porque é que Maicón se chama assim?
Segundo comentador:
-Não, conta lá!
Comentador:
-O pai dele gostava muito de cinema e queria chamar-lhe Michael Douglas, mas no registo só o que deu foi para Maicón, aí ficou Maicón Douglas!
A minha mãe:
-Olha vai entrar o Simão, tá fresquinho!
Comentador:
-Ai que a bola vinha redondinha!!!!
Outro comentador:
-Isto tá para o empate!
Comentador:
-O Brasil com pouco progresso e pouca ordem!
A minha mãe:
-Ai nem quero olhar! Vou fazer tricot!
(gesticula as agulhas com os nervos)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Um eléctrico chamado desejo

Resolução geral: Nunca mais deixar acabar a bateria do meu mp3.
Música do dia: Kiss, Prince. Dá-me umas ganas de abanar o capacete até cair para o lado que vem mesmo lá do fundo. Mesmo.
Pensamento do dia: Mas porquê???
Plano: Fazer tudo super bem e tão depressa que não me dê tempo para pensar!
Plano ligeiramente mais realista: Pensar bem antes de começar qualquer coisa...
Infelicidade da semana: Pelos vistos não aguento a bebida. Não cá dentro, sequer, simplesmente não consigo beber nada com álcool e isso é pior que qualquer coisa.
Felicidadade de semana: A Feira do Livro está aí e o S. João a chegar.
Filme do dia: Lost in Translation
Sentimento do dia: Lost in Translation:p
Melhor parte do dia: pelas 15h e suponho que de novo pela 00h00
Música do dia (agora a sério): Só mais um adeus (Vinicius e Toquinho)

Frase do dia: Vai mas é trabalhar...

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Oh Lord won´t you buy me a colour tv?

Tenho andado num enorme conflito interior. Tão grande que nem me atrevo a dizê-lo em voz alta. Alguém pode ouvir e dizer-me o que quero ouvir e não me parece que isso fosse uma opção pacífica.
Sempre me considerei feliz, há sempre algo que me deixa esfusiante. Pequeníssimas coisas como tomar um pequeno almoço maravilhoso, ouvir uma música parola e saber a letra toda, chegar a casa e enrolar-me em gatinhas. Cair na cama e esperar ter sonhos infinitos.
Mas não hoje. Não agora. Não sou feliz. E não sei porque insisto em fazer coisas que me deixam assim. Porque deixo que me cortem as pernas. Não sei o quero. Sò sei que não é isto.
E penso, será que a minha avó aguenta o desgosto de saber que tantos anos mais tarde vou desistir de tudo? Que prefiro não ter trabalho fixo a fazer isto? Que vou desperdiçar tudo o que me deram? Mas não posso viver para sempre assim.
E eu sei que é triste dizer isto, mas a vocação é zero, o prazer ainda menos, tudo não passa de frustração, falta de paixão, falta de interesse, falta de gosto.
Nunca pensei só querer dormir, dormir até eventualmente acordar uns meses antes e refazer a minha vida e não ter de passar por isto.
Nunca pensei. E acho melhor nem pensar.